quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Mosaico

Mosaico
Nem todos os sentimentos que nascem 
Podem se ramificar
Meus galhos partem honestos
Na tua direção secular
E você foge avesso
Ao meu modo de te buscar...
Tudo bem
Eu posso calmamente observar...


Nem todas as vontades são ditas
Algumas você precisa ocultar
Não quero dor nem angústia
Nem quero sentar e esperar
Eu quero repor as estruturas
Que se destacam do nosso coração
E os tornam meros mosaicos
Tão frágeis e tão sem condição
De serem invadidos novamente
E de permitirem-se ilusão...
Quimera que arde na mente
Quisera tocar sua mão...
Nem tudo que eu falo nesse momento
É certo, é errado ou é propenso
Meu passo é contínuo
Meu gosto é virulento
Sabendo dos meus propósitos
Humanos, sadios e sedentos
Te lanço um desafio...
Me pode, me arranque, me extraia
Mas não me deixe
Como folha solta ao vento...
Salvador, 05/12/08 15:08
P.S - Você é tão parecido comigo

domingo, 13 de agosto de 2017

VIDAS DE VIDRO


Ultimamente  discussão sobre as sociedades distópicas tem chegado às telas do cinema e autores de livros importantes foram fonte de inspiração para a construção desse tipo de narrativa. Mas qual a relação disso com as formas de nos relacionarmos com o mundo por intermédio das redes sociais? Parece tão normal criar pegadas virtuais, “documentar” e disponibilizar nossa vida para todos, não é? É tão atual desabafar nas redes sociais e receber uma avalanche de julgamentos e opiniões e se deixar enredar por isso… Compartilhamos de tudo, e se há emissor e receptor, a mensagem está estabelecida? Mas voltemos ao que era ficção… coisa de cinema!
O cinema , segundo Morin (2014, p. 251), tem um importante papel nas reflexões humanas, já que : “Por ser o espelho antropológico, o cinema reflete obrigatoriamente as realidades práticas e imaginárias, e também as necessidades, a comunicação e os problemas da individualidade humana de seu século” .  E, neste contexto, a obra de ficção “é uma pilha radioativa de projeções-identificações” (2014, p. 122) sobre a sociedade do futuro. Concordo!
Se você for ler e ver os autores e filmes citados nesse parágrafo, vai ter contato com os interessantes e prenomptórios Zamiantine (Nós)Atwood A história de uma serva), Burgess (Laranja mecânica), Huxley (Admirável mundo novo), Orwell (1984), Farenhit 451 (Bradbury) e Golding (Senhor das moscas), dentre outros. Era ficção e tá cada dia mais reality… Black mirror que o diga!
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Fig 1 – Controle
Em O doador de memórias  (que nem de longe fez o sucesso de Divergente ou Jogos vorazes) temos uma cidade do futuro onde as pessoas são destinadas às suas funções a sociedade e não devem demonstrar sentimentos. Como no Grande irmão de Orwell, a vigilância que os cidadãos exercem uns sobre os outros e a presença de uma sociedade autoritária e politicamente  elitista são marcas bem presentes e definidas. A mão de ferro do sistema de governo, numa sociedade teoricamente melhor não passa de uma máscara para a perpetuação do poder de seus dirigentes. Mas e se o governo não fosse ajudado por esses cidadãos? Se eles não exercessem esse papel fiscalizador?
É bem interessante o paralelo que se estabelece entre as obras de Owrwell e Huxley citadas e as duas formas de distopia estão presentes em regimes socialistas e capitalistas atuais. Então, as distopias me parecem muito mais reais do que ficcionais, não é? Tempos modernos… ou pós… ou tardo… Enfim, são tantas teorias!
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Fig, 2 – Paradoxo
Mas estamos mesmo galopando para que as antigas “ficções” estejam cada vez mais reais e palpáveis em nossas vidas? Primeiramente é preciso o entendimento que a vigilância sempre existiu e não tem prazo de validade para expirar. Da moralidade, controlada pelas religiões até a médica, que já em tempos imemoriais segregavam-se os leprosos, por exemplo.. sempre houve controle, poder e códigos a ditar as regras sociais e culturais da humanidade.

A vigilância médica das doenças e dos contágios é aí solidária de toda uma série de outros controles: militar sobre os desertores, fiscal sobre as mercadorias, administrativo sobre os remédios, as rações, os desaparecimentos, as curas, as mortes, as simulações. Donde a necessidade de distribuir e dividir o espaço com rigor. (FOUCAULT, 1987, p. 170)

Só que agora, com as redes sociais e a possibilidade de postar em diferentes meios instantaneamente, tudo se reconfigura, pois o alcance de nossa “palavras” se expande. Até os limites dos confins da internet. E ninguém sabe em que buraco negro termina esse “lugar”.
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Fig, 3 – Sem internet
E se nos vigiamos e  satisfazemos o nosso voyerismo cibernético nas relações que estabelecemos pelas diversas rede sociais, não estamos muito distantes da visibilidade panóptica defendida por Foucault, onde:
O Panóptico (…) tem seu principio não tanto numa pessoa como numa certa distribuição concertada dos corpos, das superfícies, das luzes, dos olhares; numa aparelhagem cujos mecanismos internos, produzem a relação na qual se encontram presos os indivíduos (…) Pouco importa, consequentemente, quem exerce o poder. Um indivíduo qualquer, quase tomado ao acaso, pode fazer funcionar a máquina: na falta do director, sua família, os que o cercam, seus amigos, suas visitas, até seus criados (…) Quanto mais numerosos esses observadores anónimos e passageiros, tanto mais aumentam para o prisioneiro o risco de ser surpreendido e a consciência inquieta de ser observado.   (FOUCAULT, 1997, P. 167)  
Fig. 4 – Nuvem
       Somos todos visíveis e controláveis nas nossas publicações pelo olhar de nossos pares. Nossa casa é de vidro, como Atwood preconizou. A espontaneidade não cabe no selfie posado, pensado com uma finalidade pre-concebida e os nossos mecanismos de sujeição se ampliam nesse processo contemporâneo e dicotômico onde vigiar é uma ferramente de evitamento ao punir.
Mas nós queremos aparecer! Há quem dê bom dia a todos os seus contatos do zap num click só! Isso me aprece tão desnecessário. Mas tem uma coisa que já não ocorre mais, pelo menos, os e-mails de foward! Viva!
E quantos se inscrevem no programa Big Brtother anualmente para serem objeto de observação? Dá para virar celebridade assim também. Mas o prazer dos que assistem pode estar justamente em “vigiar todas as dependências onde se quer manter o domínio e o controle. (FOUCAULT, 1997, P. 170)  Porque desejamos controlar a vida e a moralidade alheia como sempre! Apontar o dedo para o certo e errado! Jogar na fogueira os que são diferentes ideologicamente é tão fácil atualmente! E vamos combinar que uma inocente espiadinha ou uma comentadinha, não mata ninguém… Será? Não?
São os devidos indivíduos
Com seus limites abolidos
Seus estares perdidos
Em rotineiros palcos aborridos
Duvido?
Decido!
Divido?
Quem manda compartilhar  uma vida de vidro?
Guel Pinna

13.08.107, 21:54h
REFERÊNCIAS
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. O nascimento da prisão. Tradução Raquel Ramalhete. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 1987.

Vamos nos perdoar?

Minha mensagem de dia dos Pais sempre foi para o meu avô Eliseu, homem íntegro, forte e batalhador que criou a mim e a minha irmã e mais nove filhos com exemplos de honestidade e valores morais importantes.
Painho, que após sua jornada na Terra partiu para o plano maior há alguns anos, certamente está tão próximo de nós que me emociona muito lembrar dele nos seus muitos momentos ao nosso lado.
Lembro de sua extraordinária inteligência e autodidatismo, pois ele sabia fazer um poço artesiano, coisa que nunca vi outra pessoa fazer, com extrema precisão. Sabia de eletricidade, hidráulica, colheita, culinária, geologia e política. Dentre outros saberes que me foram sendo compartilhados ao longo da vida.
Ele trabalhou por muitos anos com técnico em química numa fábrica de detergentes e não gostava de perfumes. Tinha uma fórmula de uma borracha que segundo ele, não se desgastaria nunca. Gostava de pescar e eu nunca vou esquecer dele dividindo as tilápias entre seus amigos que participavam das pescarias.
Saim em grupos e na volta ele, poe ser o mais velho e mais justo, era o responsável pela divisão. Uma balança resolveria, mas não usava-se balança. Os peixes tinham diferentes tamanhos e ele fazia lotes que não poderiam ficar exatamente iguais. E ele, por ser o que dividiu, seria o último a pegar seus peixes. O monte dos nossos peixes era sempre o que tinha maior quantidade de peixes pequenos. Mas ele me disse que ele jamais poderia pegar o primeiro lote, afinal, todos eram equitativos e não se deve nunca tirar vantagem dos outros.
Eu adorava mexer na sua coleção de moedas e de pedras semipreciosas, que ficavam numa caixa. Aprendi a jogar baralho e dominó muito cedo com ele e eu sempre tive muita sorte nesses jogos, mas nunca ganhava dele no dominó. Ele sempre fundava ligas de dominó e teve algumas perdas com as cartas, mas isso eu não lembro direito, só ouço falar.
Ele não gostava de café e tomava muto suco de maracujá, hábito que adquiri também. Fazia uma comidas apimentadas, que hoje sei que são receitas árabes. Cozinhava muto bem e até linguiça ele sabia fazer!
Gostava de tomar seus drinks quando saía com seus amigos, mas nunca vi uma briga, uma altercação ou uma mudança de comportamento por isso. Também não bebia em casa e na nossa feira nunca foi incluída nenhuma garrafa de bebida.
Painho, já aposentado, voltou a morar em Ibimirim (PE) onde tínhamos duas casas que um dia tinha sido um hotel administrado pela minha bisavó, D. Maria Pereira. Eu não a conheci, mas era a matriarca da família, muito a frente das mulheres do seu tempo.
Sonho comprar essas casa e transformá-las um dia numa ONG em homenagem a Painho e Mainha, Rosa Gomes.
Mainha (Rosa Gomes) e minha irma e primos.
Mainha é uma mulher extraordinária, que também está no plano superior há alguns anos. Que saudade de vocês!
São tantas boas lembrança desse casal maravilhoso que me deu chão, teto, ar, alimento, norte e especialmente muito, muito amor! Porque as pessoas acham que a felicidade vem das coisas que podemos comprar e não vem. A felicidade vem do colo que Mainha me dava enquanto me fazia cafuné até eu dormir. Dos momentos em que olhava meus cadernos para me dizer "Muito bem, continue estudando!" Dos momentos em que nos colocava com as mãos postas para agradecer Deus pelas coisas da vida. Dos exemplos diários de resiliência e abnegação.
A felicidade vem dos momentos simples e cotidianos em que sentávamos a mesa para almoçar e pedíamos o "costume" a Painho.
O "costume" era uma espécie de pagamento simbólico por não ter almoçado coma gente. Se comesse depois por algum motivo, tinha que dar um pedaço da carne dele. Hoje analiso isso e vejo assim, na época não sei se sabia que era uma tipo de cobrança nossa.
Claro que todos nós temos defeitos e qualidades e eu já escrevi sobre o tipo de educação tradicional que tive e os impactos disso na minha formação. Positivos, claro, mas a gente acha que poderia ter mais liberdade e tal.
Painho e Mainha são para sempre meus heróis e devo a eles tudo que me tornei, no entanto eles fizeram a parte deles e não estão mais aqui.
Aí eu tomei uma decisão hoje que na verdade é um desafio. Meu pai e minha mãe se separaram quando eu nem tinha dois anos e minha mãe, vivendo toda a dor e problemática de se tornar uma mulher sem marido nos anos 70, decidiu que as melhores pessoas do mundo para cuidarem de nós eram os seus pais.
Eu levei décadas cobrando dela que não era pra ter sido assim. Meu pai se afastou, apareceu malmente umas dez vezes na vida para pegar os nossos atestados de escolaridade que eu acho que o Imposto de Renda dele exigia. Hoje é o nosso primeiro dia dos pais juntos. Eu tenho 47 anos e já joguei na cara dele o seu descompromisso injustificável conosco desde sempre.
Já disse mais uma vez, com muita dor na alma: "Você me deve 47 de afeto e 24 anos de pensão." Acho que deve mesmo, pois pensão alimentícia tá na lei e como eu era universitária, meu direito era ate 24 anos. Mas não podemos mudar o passado.
É muito difícil perdoar... Os pais, os ex-maridos, os filhos, os irmãos, os parentes, os ex-amigos e principalmente a nós mesmos. Mas se não advém uma catarse de tudo isso que somos convocados a aprender a lidar durante a escola da vida, a gente não avança. E eu estou aqui para avançar!
Nesse dia dos pais, eu gostaria de dizer que não existe ex-pais e ex-filhos. Família é pra sempre, mesmo que não seja a família do comercial de margarina. E tivemos por algum motivo que ser reunidos por laços que para alguns não dizem muito, mas para mim tem grande significação e importância.
Nesse dia dos pais eu quero um momento de felicidade com quem esteve do meu lado, como minha mãe, meus filhos, minhas irmãs, minhas tias e meus amigos. Não dá pra juntar todo mundo, pois cada um tem também que estar com seus núcleos familiares. Então, hoje todo meu núcleo familiar presente aqui vai se reunir.
Vamos comer uma deliciosa comida baiana e minha mãe e meu pai fizeram a moqueca. Minhas irmãs fizeram o vatapá e outras iguarias. Eu fiz uma torta de limão e meu filho e meu sobrinho vão lavar os pratos.
Não vai ser ao meio dia, como eu gosto, porque atrasamos um pouco. Aliás, eu tinha um problema muito sério com atraso. Mas a partir de hoje, eu não quero mais saber do tempo me oprimindo e me sinalizando o passado. Eu quero saber que posso ter 20, 30, 40 ou até 50 anos pela frente e é nisso que vou concentrar minhas energias. No que ainda posso melhorar, recuperar, promover, compartilhar e amar.
Sabe o "antes tarde do que nunca"? Pois é!
E pra gente que tem aqui uns perrengues com o pai, eu sinto que ninguém é perfeito. Quero aceitá-lo como ele é. Não posso mudá-lo. Nem culpá-lo, porque a culpa não leva a nenhum lugar feliz.
Eu posso perdoá-lo, tentar compreendê-lo, respeitá-lo e amá-lo. Por que não? E se isso é difícil, por toda ausência e sentimentos que ainda não estão totalmente resolvidos, eu digo que não é impossíevl! Na verdade é desafiador! Talvez, o maior desafio da minha vida... Talvez!
13.08.17 12:59h