segunda-feira, 19 de junho de 2017

Asas da Alma



É preciso deixar entrar
Tudo que for brilhante
Emocionante
Edificante
Enfim, tudo que possa se somar!
Deixo me invadir por você
Tão plenamente
Tão simplesmente
Como um pulmão
Que naturalmente se enche de ar
Vem de novo me inspirar...
É preciso olhar
Para além dos olhos
Além da matéria
E da coisa tida
Como exemplar
Nem tudo está perfeito
As órbitas tem caminhos
Difíceis de explicar
Mas cabe a você deixa fluir
Não mais partir
Se seu desejo for ficar
E seja lá qual for a escolha
Não se esconda numa bolha
Deixa a felicidade ser seu par
De minha parte eu te darei abraços
Carinho e o conforto
Que só que tem aberto o coração
Pode realmente ofertar
Eu te respeito, eu te apoio
Eu te admiro, eu te aceito
Não quero nunca te mudar
Afinal, tem tanta coisa
Pra gente compartilhar
Então chega aqui bem perto
E vamos juntos nos inspirar
Entrar devagar no terreno concreto
Que conduz a senda do despertar
Eu te espero, eu te outorgo
A liberdade de optar
Vamos nos perceber continuamente
Do jeito que for possível
Içar as velas
E navegar
No horizonte das galáxias
Com asas da alma...
Guel Pinna

Salvador, 19.06.17 7:15h

sábado, 17 de junho de 2017

Os tijolos da espontaneidade e a argamassa técnica

Tou fazendo na UFBA a disciplina Jogos e improvisação Teatral (TEAA15).
Temos 8 aulas semanais, divididas em três dias e muita atividade prática. Uma das atividades escritas é a elaboração de um relatório semanal sobre as percepções e sensações da aula. Eu já fiz quatro e eles ficaram tão íntimos e evidenciando os meus estados de espírito, que acho que tá mais pro muro das lamentações. Só eu e Meran vamos entender essa metáfora, afinal é uma experiência de escrita muito peculiar.

Mas dá um click no muro do Pink Floyd pra ficar mais legal de ler. Eles criticam a educação formal com suas regras e controles. Eu também! Então, é preciso de um pouco de semiótica nessa vida!


Mas eu acho que é necessário outro estilo de escrita para mim, que tenho blog e gosto de escrever. Primeiro que o hipertexto me atrai mais. Segundo, que eu preciso estar com a mente em movimento. Aliás, se meu corpo fosse tão ativo quanto minha mente, eu seria muito "malhada".

Tabém tenho necessidade aprofundar o conhecimento de como ensinar a técnica na prática, afinal, como futura Diretora Teatral, quero desenvolver minha própria metodologia.

Na narrativa um tanto monótona, porém bem didática e básica, o vídeo "Viola Spolin vida e obra" traz um pouco da história desta importante autora, professora e implementadora dos Jogos Teatrais nos Estados Unidos. Ela se baseou no trabalho de Neva Boyd, e seu trabalho é fascinante. Também gosto da Ingrid Koudela, que foi para além da tradução de Spolin e da criação da  Revista Fênix. Esse trio feminino, em difrentes momentos, trouxeram valiosas contribuições para o teatro improvisacional.

Gosto de Spolin com seu estilo próprio e já li alguns de seus livros. Sua linguagem é simples, direta e objetiva. Beirando o coloquial, no entanto. Ela acredita na espontaneidade e a defende, de forma  que o jogador deve estar concentrado na ação com o objetivo de liberar a energia a partir de "liberdade pessoal" que pode ser estimulada e fazer com que o jogador "transcenda a si mesmo", tornando-se capaz de:
[...] penetrar no ambiente, explorar, aventurar e enfrentar sem medo todos os perigos. A energia liberada para resolver o problema, sendo restringida pelas regras do jogo e estabelecida pela decisão grupal, cria uma explosão – ou espontaneidade – e, como é comum nas explosões, tudo é destruído, rearranjado, desbloqueado. (SPOLIN, 1998, p.5)


Fig. 1 -  A brecha nas regras. Calvin & Haroldo, by Bill Watterson. Fonte: http://depositodocalvin.blogspot.com.br/

Na minha prática, isso não acontece assim, como se fosse a lei da gravidade. Os exercícios de aquecimento podem até exigir a minha atenção e pelo caráter lúdico contribuir para o meu envolvimento pessoal na atividade, no entanto, essa explosão que vem e desbloqueia as coisas não é fruto de uma ação física. Ou pelo menos não foi até agora. Eu fico orbitando em mim mesma e em meus pensamentos. Se os exercícios são de relaxamento, eu divago, entrego o corpo à malemolência e só. E aí fico questionando se não estou atingindo os objetivos propostos, daí querer compreendê-los melhor.

Defendi recentemente o meu interesse em entender a técnica, o processo, o objetivo e a intencionalidade. Claro que não vai existir uma receita e eu não quero isso. Mas sinto falta, devido ao meus estilo ainda calcado nas hard sciencesda teoria que subsidia as coisas. Porque tem teoria na prática e vice-versa... para mim. Me senti um pouco "catequizada" por alguns colegas, como se estivesse buscando o Santo Graal


Fig, 2 - Minha dúvida também. Fonte : http://www.antigomoodle.ufba.br/file.php/11455/To_blog_or_not.jpg

Em teatro, alguns autores tem uma certa "desconfiança" para com a técnica. Encontrei um artigo  de Thomas Holesgrove e aproveitei bastante. Confesso que ler artigos é bacana para mim. Ele tece uma interessante costura entre Técnica e Espontaneidade a partir uma comparação das obras de Jerzy Grotowski, Viola Spolin e Kristin Linklater. Acho apud um negócio feio no texto, daí tou referenciando como lido na fonte, mas confessando que li no artigo, tá?

Não educamos um ator, em nosso teatro, ensinando-lhe alguma coisa: tentamos eliminar a resistência de seu organismo a este processo psíquico. O resultado é a eliminação do lapso de tempo entre o impulso interior e a reação exterior, de modo que o impulso se torna já uma reação exterior...Nosso caminho é uma “via negativa”, não uma coleção de técnicas, e sim erradicação de bloqueios. (Grotowski, 1992, p.14-15)

Será que estou bloqueada? E se estou, qual a chave de acesso para o desbloqueio? Tenho obrigação de saber? Me senti um celular agora... Com toda potencialidade mas sem saber utilizar as interfaces. A quem se recorre nesses casos? Ao manual, claro! Mas eu não sou uma máquina, embora não esteja destituída de tecnologia!


Fig, 3 - O palco não é pra você. By Pedro Ivo. Fonte: https://pedroivo.files.wordpress.com/2014/05/teatro.jpg

Noto que Grotowski faz distinção (neste trecho) entre educar e ensinar. São sinônimos, no entanto. Acredito que educar é maior ensinar. Se se é essa sua intenção, talvez seja ancorada também na ideia de que "no teatro é diferente", como ouvi tantas vezes. Que diferencial é esse?

Já Spolin, me fez pensar no talento versus a técnica,  que dá outra discussão e não quero fazer um post/relatório gigante!

As técnicas não são artifícios mecânicos – um saco de truques bem rotulados para serem retirados pelo ator quando necessário. Quando a forma de uma arte se torna estática, essas “técnicas” isoladas, que se presume constituam a forma, estão sendo ensinadas e incorporadas rigidamente. (Spolin, 1998, p.12)

E temos também trabalhado a voz. Gostei das considerações que apontam para o aprisionamento da voz e portanto da espontaneidade. Ninguém vai dizer que um cantor não precisa de técnica, vai?  Mas reconheço que intuição é fundamental no processo criativo! Acho que nessa vibe, os exercicios em que começamos a trabalhar os cinco elementos da voz. Começamos com a voz terra, assim como no vídeo de Bárbara Macafee. (OH NO!!!)

O processo é estruturado para liberar a voz natural em vez de desenvolver uma técnica vocal. [...] A ênfase aqui é de remover bloqueios que restringem o instrumento humano como algo diferente do que o desenvolvimento de um instrumento musical habilidoso. (Linklater, 1976, p. 1)

O que mais fizemos e que não citei aqui foram variações do jogo que descobri se chamar Samurai. Também fizemos o Jogo do Pêndulo e surpreendentemente eu me deixar conduzir. Meu temor era ser pesada demais para meus colegas magrinhos!

Enfim encontrei teoria para a necessidade de repetição que eu acho pouco atraente. Mas eu entendo! Mas eu preciso entender com um suporte, discordando, ampliando, comparando. 

Espero que esse texto seja útil não apenas para mim. Daí, aqui está! É um importante momento de reflexão crítica e que me servirá posteriormente também.

Guel Pinna

Salvador, 17.06.17  11:36h


Referências

HOLESGROVE, T. Técnica e Espontaneidade: uma comparação das obras de Jerzy Grotowski, Viola Spolin e Kristin Linklater. Revista Aspas. vol. 2, n.1, dez. 2012, p. 141-150. Disponível em:
Acesso em 17. jun, 2017.


sexta-feira, 9 de junho de 2017

A desconexão da verdade


Na música Big girls cry, de Sia, há um trecho que diz: 
"I'm at home on my own
Check my phone
Nothing, though
Act busy, order in
Pay TV, it's agony" 

Algo que poderia ser traduzido livremente como "Estou em casa

sozinha/Checo o telefone/Mas nele não tem nada/Finjo estar ocupada/ Faço um pedido/TV paga é uma agonia". 

Fingir estar "realizando" algo no celular é tão atual e natural, que sequer causa estranhamento... Quem é que não está "ocupado" com seu smartphone o dia todo? Algum alienígena digital, provavelmente. Alguém "iletrado" , talvez. Mas também tem a galera que resiste aos avanços tecnológicos e fica de fora do sistema por vontade própria. Mas quem tem seu celular,  quando não há wi-fi disponível ou quando os dados móveis acabam, costuma se sentir "desconectado", sem "mobilidade". Essa sensação é própria da nossa nova cultura, que pulsa de uma forma singular, a cibercultura


Com o surgimento da internet uma reconfiguração sociocultural foi gerada, permitindo que a informação saísse do controle dos chamados meios de comunicação de massa e passasse a ser um mosaico mais fluido, potencialmente mais livre, mais poderoso e com maior possibilidade de alcance.  Lemos (2006) chama isso de estrutura "pós-massiva" e diz que  qualquer pessoa pode, pelos meios multimodais ser um construtor e produtor do conhecimento, pois:
Na estrutura massiva do controle da emissão – a indústria cultural clássica – a informação flui de um polo controlado para as massas (os receptores). Com o surgimento e expansão do ciberespaço, esse modelo está sendo tensionado pela emergência de funções pós-massivas". (LEMOS; LÉVY, 2010, p. 26)

O meios tradicionais de comunicação não foram e não serão abolidos, mas certamente que foram e serão, paulatinamente "reconfigurados", pois se faz necessário atender as demandas de uma sociedade em rede.

Pensemos juntos nos modelos comuns de comunicação entre pessoas. Na era do telefone, teríamos que estar no local do aparelho. Hoje nos acham em toda parte, desde que haja sinal. E  especialmente o aplicativo Whats app, mudou a forma, a velocidade e o alcance da nossa comunicação. 

Quantas vezes consultamos (como Sia) o Whats app esperando uma resposta que não vem ou uma pergunta que não ocorreu?  Por isso, não estamos mais sós, nem em silêncio, nem exatamente num território físico. 
Será que estamos "simulando" a realidade e até ressignificando nossos comportamentos sem maiores percepções disso? Afinal, segundo Baudrillard, "dissimular é fingir não ter o que se tem. Simular é fingir ter o que não se tem. O primeiro refere-se a uma presença, o segundo a uma ausência. Mas é mais complicado, pois simular não é fingir."  (BAUDRILLARD, 1981, p.9- 10) 

Telefonar, interrompendo ou até mesmo importunando nosso interlocutor não é mais tão comum. Reconfiguramos também essa forma de relação. Com vantagens? Desvantagens? Depende da percepção de cada sujeito. O fato é que estamos diante de mudanças que ainda não avaliamos com distanciamento por estarmos vivendo este momento. Tudo tão recente! Tão potencialmente virtual, na acepção da palavra. Tão emergente e potencial. E por isso, os acontecimentos fluem, fatos corriqueiros acontecem,  mas não ficam segregados a quem os viveu, visto que podem ser são partilhados, virar meme, viralizar. E isso , mas não apenas isso, também é cibercultura. Ainda bem.




Referências

BARBOSA, E. A. S. Linguagem e interação no Whatsapp. Disponível em:
Acesso em 08 jun. 2017.

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulação. Tradutora Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio D‟água, 1981. 

COSTA, A. Mídias massivas e pós-massivas no fluxo das redes. Disponível em : <http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5572&secao=447> Acesso em: 08 jun. 2017.

LEMOS, A. Cultura da mobilidade.Revista FAMECOS . Porto Alegre , nº 40 •,dezembro de 2009. Disponível em: <http://paginapessoal.utfpr.edu.br/kalinke/gptem/gptem-grupo-de-pesquisa-sobre-tecnologias-na-educacao-matematica/grupos-de-pesquisa/pdf/2015/Cultura%20da%20Mobilidade.pdf> Acesso em: 08 jun. 2017.

LEMOS, A.; LÉVY, P. O futuro da internet: em direção a uma ciberdemocracia planetária. São Paulo: Paulus, 2010.

LEMOS, A. O que é cibercultura? Disponível em : <https://www.youtube.com/watch?v=hCFXsKeIs0w> Acesso em 08 jun. 2017.

LÉVY, P. O que é virtual? Disponível em :  Acesso em 08 jun. 2017.



quarta-feira, 26 de abril de 2017

Cultivar

Quero cultivar você em mim
No meu jardim
Há tantas flores
Quanto brilho vejo em você
Quero saber
Dos seus amores...

E dê espaço
Pra mim
E eu acho
Que pode ser bom
Pode somar
Pode ser tão intenso

Quero cultivar você em mim
No meu jardim
Há tantas flores
Cores que percebo em você
Me dão prazer
Somos autores...

Da nossa história
Escolha agora
Qual o caminho?
Ficar sozinho
É sempre tão difícil...

Quero cultivar você em mim
Em meu jardim
Há tantas flores
Tanto temos pra compartilhar
Deixe eu entrar
Não há temores...

Me dê a chave
Me dê a chance
De te tocar
Te percorrer
Mergulhar em seu ser...

Guel Pinna

Salvador, 26.04.17   9:46h







sexta-feira, 21 de abril de 2017

Sedentarismo espiritual


- Eu faço academia todo dia, sábado, domingo e feriado! Não pode dar mole pra gordura não!
- Eu pratico artes marciais, três vezes por semana. Também adoooooro boxe!
- Eu corro na orla, ando de bicicleta, tenho que cuidar do corpo, né?
- Eu faço meditação e Yoga... E pratico diariamente boas ações...
Espanto geral!
- Como assim? É alguma modalidade nova de fitness?
- Não, é uma modalidade antiga... Mexe o corpo um pouco, mas são ações visando fortalecer o meu espírito e não requer esforço físico... Mobiliza minha musculatura do ego!
- Ah, mas cuidar do corpo é fundamental! O bem estar que advém dos exercícios, a serotonina que me invade depois de malhar, eu não troco por nada!
- Sem contar que quem não se cuida pode desenvolver doenças, engordar, enfim, ter um monte de problemas!
- E eu quero envelhecer com saúde! Mas você é sedentária total? Isso é inaceitável nos dias de hoje!
- Atualmente só tenho meditado e caminhado algumas vezes, atividades que requerem pouco suor. Não sou sedentária. Existem modalidades e modalidades de atividade física. Acho que devemos nos preocupar com a prática de exercícios para o corpo, mas não me vejo apenas como um corpo, portanto tenho praticado exercícios para alma.
- Com assim? O que você faz? Qual a utilidade prática disso?
- O bem estar do exercício pode ser obtido também quando fazemos algo de bom e útil pelo próximo, por exemplo. O prazer de ajudar alguém, seja com uma palavra amiga, com um gesto ou com algo material me dá uma sensação muito boa... É gratificante para mim.
- Já sei, você fica nessas paradinhas de religião... Quer ir sem escalas para o céu! Não credito nisso minha filha! Mas acho bonito quem acredita... Mas é muita utopia!
- Não é preciso estar vinculado a nenhuma religião para a prática do bem... Mas sim, existem academias espirituais, se você precisar se sentir conectado a um grupo de semelhantes... Igrejas, centros, terreiros, templos, comunidades...
- Não vejo ainda onde essa sua prática lhe traga vantagens que não sejam meramente de caráter moral... Eu vivo o aqui e o agora... Não tenho tempo pra essas coisas! Pago minhas contas em dia, meus impostos, respeito as leis, então não acho que tenha que ir além disso... Pra que? Não acredito nessas baboseiras de Deus... de religião...
- Religião é o ópio do povo! Veja quantas igrejas são milionárias... E os pobres coitados lá, sendo enganados e achando que comprarão um terreninho no céu...
- Peraí, não podemos generalizar...Existem religiões e religiões... Eu mesmo conheço vários trabalhos sociais importantes em grupos que não cobram taxas, não passam sacolinha e sobrevivem de vendas de livros, doações, campanhas... Já fui em um num momento difícil de minha vida...Melhorei... Aí deixei pra lá... Mas penso em voltar um dia...
- Exatamente. Eu integro um desses grupos. E lá exercito minha capacidade de me tornar uma pessoa melhor... Domar meus vícios... Me compreender... Sem investimentos financeiros... Investimento moral... Estou comprometida com isso. E demorei até tomar essa decisão...
- Epa, aí me interessei! Eu pago caríssimo pra me entender... Minha analista é top, vale a pena, mas né barato não! Os olhos da cara!!
- Meu terapeuta também é excelente! Não sei o que seria de mim sem ele... Mas é claro que tem que ter um preço! O cara se formou, investiu...O consultório é aconchegante... Me sinto noutro mundo quando vou lá... E iria mais, se o orçamento desse...
- Não faço análise. Minha terapia é lidar com pessoas com problemas bem piores dos que os meus... Gente que não tem o que comer e está nas ruas, invisível... Passando fome, frio e principalmente deixando de ser gente... Toda vez que volto da distribuição da sopa pros moradores de rua, eu penso em como sou sortuda por ter um emprego, uma família, um lar...
Também sou voluntária numa escola... Desenvolvo um trabalho educativo lá... Já ensinei a jogar xadrez, já atuei na biblioteca...
- E quando você arranja tempo para isso? Eu não tenho tempo pra nada!
- Tenho os finais de semana livres... Reservo umas duas a três horas no sábado... O projeto da escola é de apenas duas horas por semana, na sexta...
- Não sei como você arranja tanto tempo, viu?
- Quantas horas por dia vocês malham? Quantas horas passam nas redes sociais, vendo noticiário, novela, séries?
Silêncio...
- Ah, mas isso faz parte da vida! Temos que relaxar que ninguém é de ferro...
- Claro, mas eu só queria dizer que tempo é uma questão de prioridade... Quem vive reclamando que não tem tempo pra si, pra família ou pro lazer, na verdade tem as mesmas 24 horas que todo mundo tem, mas a sua forma de levar essas horas é que dá essa impressão... Somos pessoas de sorte?
-Nada, sorte não existe! Somos pessoas firmes, que dão duro!
- Sei, não viu? Canso de ver gente capaz sem conseguir emprego... Gente que se esforça, se esforça e não sai do lugar...
- É a crise... uns com mais, outros com menos...Não posso me responsabilizar pelo mundo e seus problemas... Já tenho os meus!
- Certamente que todos nós temos problemas. Ninguém é perfeito. Mas às vezes damos uma dimensão maior... Quantos não se sentem deprimidos ou injustiçados por qualquer insucesso ou puxada de orelha do chefe?
- Eu mando no meu negócio...Não tem essa de chefe, agora com essa crise, não tem como não estressar...Trabalho feito um louco... Só no boxe encontrei sossego... Depois passei pro Jiu Jitsu... Mas tenho problemas pra dormir... Aí, velho, não tem jeito...Tem que ser na base do remédio mesmo...
- Dormir e acordar são fenômenos naturais... No entanto, muitos fatores levam ao desequilíbrio dessa função... Exercícios físicos ajudam, mas eu afirmo, exercícios morais podem curar...
- Você tem como provar?
- Claro que não!
- Existem estudos demonstrando o poder da mente, das emoções positivas... Até a lágrima de tristeza e de alegria tem composição química diferente... Mas, não quero convencê-los de nada, meus amigos... Apenas expressei minha opinião sobre exercício..Pensem na palavra... E-X-E-R-C-Í-C-I-O... Assim como é importante cuidar do corpo, é obvio que é fundamental cuidar da alma, do ego, da personalidade, das emoções... Enfim, do que não é físico. As doenças psíquicas, são devastadoras... E tomar remédio tarja preta pro resto da vida é desalentador...
- Tem a psicoterapia também, fora dos remédios... Eu faço pra complementar o tratamento... Mas realmente, me incomoda que meu psiquiatra acredite que eu preciso tomar esses estabilizantes de humor pro resto da vida... Que eu não possa viver sem... É como se eu não tivesse capacidade de ficar normal...
- Eu também tomo e me sinto melhor...Mas gostaria de ficar livre...
- Pois é...ser livre...Será que somos realmente livres? E será que podemos comprar tudo que precisamos? Acho que as coisas realmente preciosas, não tem preço. Pode parecer clichê, mas pensem aí quanto custa o afeto... Da mãe, do pai, dos filhos, dos amigos, dos colegas de trabalho...Tem como comprar? QUANTO NÃO ESTARÍAMOS DISPOSTOS A PAGAR POR UM POUCO DE AMOR SINCERO E PLENO?
- Vendem tanta coisa... Por que não inventaram a droga do amor ainda? Ou pelo ao menos alguma coisa que nos trouxesse essa sensação?
- E aí vem outra coisa... As drogas... Sem uns drinks, não dá não, velho! É muita pressão!
- Já tentei largar o cigarro... Definitivamente não dá...
- Eu acho que até que controlo a bebida, fumo quando bebo, mas difícil mesmo é controlar o cartão de crédito!!!
- Rapaz, pior que controlar o sexo, não tem!!!! Não consigo ficar com uma só... Já tentei... Minha vida tá um inferno porque uma amante descobriu meu Face e de lá achou o de minha mulher...
- Viu aí, garanhão?
- Eu jurava que vocês eram felizes...Vocês são o "casal"...
- Pois é...fotos no Face dão essa impressão... Na realidade a vida é outra...
-Então, meu amigos, bom encontrar vocês. Fazia tempo que não nos víamos, né?
- E pensar que éramos inseparáveis no tempo da faculdade...
- Tudo vai mudando...
- É, nunca pensei que o Dimitri...
- Quem ia imaginar que um cara bonito, bem sucedido e bacana como ele...
- É... o suicídio nos choca mesmo... Eu ainda não consigo acreditar...
-Enfim, vamos fazer uma oração por Dimitri... Talvez seja a única coisa que nos reste fazer agora...
-Estão fechando o caixão... E um dia, todos nós, sem exceção, partiremos também...
- É a vida...
Silêncio... Aquele silêncio da reflexão.
Guel Pinna
Salvador, 08:57h

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Eros explica o amor - monólogo

Encontrei com Eros. Tomamos uísque na mesa da sala. E eu estava muito feliz de visitá-lo. O fato de estarmos sós e em sua casa deixava para mim um clima, uma certa tensão no ar. Para ele eu simplesmente não sei como era, mas gostaria de saber.

Quantas vezes não somos realmente livres para estabelecer uma conexão com o outro pautada também na efemeridade?

O medo de arriscar uma amizade tão bacana deve ter passado na mente de Eros. Na minha passava a vontade de ser abraçada, beijada, tocada... Contudo, não fiz muito para evidenciar meus desejos, atiçados ainda mais pelo álcool...

Enchi uma garrafa de água mineral vazia com a vodca que tinha trazido. Fomos na Pedra do Sal. Era uma segunda-feira despretensiosa. As ruas estavam cheias e eu confesso que não vi muita coisa. Eu estava lá, mas ao mesmo tempo não estava. Compreende?

Após umas horas, Eros "sequestrou" minha garrafa e disse que tinha acabado. Esse negócio de beber nunca foi bom pra mim. Perco o juízo que não tenho, perco a classe que tenho, perco o controle. É uma coisa horrível que eu sempre acho que vou controlar, mas a verdade é quase nunca controlo. E também não acho que é hora de parar. Tem algum prazer nisso e eu não quero nem celibato nem restrições. São tão poucos meus vícios. Que nem chega a ser um vício. Posso passar sem...Mas às vezes sinto que preciso... Enfim,não vou explicar nem teorizar nada... Cada um é que sabe de si...

Votamos de táxi. Eu insisti que não voltaria a pé, apesar da pouca distância a ser percorrida. Chegamos em casa e capotei. Não sei o que disse, mas provavelmente não disse nada demais. No dia seguinte achei minha garrafa com metade ainda da vodca. Ele sorrindo me explicou que escondeu de mim, porque eu já tava grogue. Nem fiquei com vergonha nem nada. Com os verdadeiros amigos a gente não fica preocupado no que vão pensar da gente. Acho que é o mais perto da liberdade se ser como somos que temos... De nos aceitarmos plenamente e sem julgamentos... Por isso gosto tanto de ter amigos. Valem mais que mil transas... E um milhão de orgasmos não valeria o prazer de ficarmos juntos simplesmente pela companhia... Não é físico... é muito mais... Percebe?

Passei alguns dias lá com Eros. Ele saia pra trabalhar e eu pra passear. Trocávamos algumas mensagens durante o dia e permanecíamos conectados nas rotinas um do outro.

Resolvi fazer um jantar. Andei até um supermercado pra descobrir o quanto o custo de vida lá é caro! Nossa! Fiz um escondidinho de carne. Comemos, mas sobrou muito. Colocamos em saquinhos e demos pros mendigos que ficam perto de sua rua. Como solteiro que não curte cozinhar, ele não tem nada além do que precisa em sua despensa e geladeira. Não acumula feito eu. Também não estraga. Tem lá uma fritadeira elétrica que frita sem óleo e fez umas coisas semi-prontas. Come em padarias e restaurantes. Prático, sem dúvida...

Sabe quanto tempo a gente se conhece? Rapaz, uns cinco anos... Não lembro exatamente onde foi a primeira vez. Em qual cidade, pois adoramos viajar e participamos de um mesmo grupo mundial de viajantes.

Uma vez eu estava em Vitória e ele também. Confesso que ainda não éramos amigos. Éramos só conhecidos e estivemos juntos nas muitas atividades de lazer propostas pelo encontro. Mas eu não me lembro muito dele. Mas aí, vem o inusitado. Depois de muitos dias, finalmente encontrei um "nativo" pra trocar fluidos. E deixei o grupo, depois de muitas doses de vodca para ir pro motel com o cara. Eu estava de passagem. Não ia ficar segurando nada por nada, entende? Todos os meus amigos já tinham pelo menos tido algo com alguém, e eu no zero a zero. Enfim, não tenho que explicar porque queria transar, né? Não precisa.

O cara era muito louco, mas eu prefiro os doidos assumidos aos certinhos transtornados que não se mostram como são. Sempre sabemos o que esperar das pessoas que assumem sua loucura. Dos que tentam usar a máscara da "correção" e dos bons costumes, eu tenho até medo... É muita coisa represada que um dia pode explodir. Prefiro os que não represam suas águas... Enfim... Não conhecia Vitória. Só os pontos turísticos vistos até então. Não sei como, Eros estava lá. E também não sei como, foi ele quem nos levou no motel. Fiquei muito grata com isso, pois escolhemos um perto de onde eu estava hospedada. Acho que foi a partir daí que prestei atenção em Eros. Querendo, ou não, ele estava me protegendo e cuidando de mim. Afinal, se o estranho resolvesse me fazer em picadinho, sabia que eu tinha um amigo que foi testemunha de que ele estava comigo... Enfim, a gente não pensa no perigo potencial que todo ser humano encerra. Não pensamos que aquele estranho que está ali cheio de amor pra dar pode ser um cara traumatizado, problemático, tarado ou repositório de uma DST! Ok que se pode usar camisinha, mas camisinha não impede tudo. E os beijos? E o sexo oral?Bom, isso é outra história e eu também não quero pensar nisso agora.

Chegamos no motel com aquela cama redonda e espelho no teto. Luz difusa, que eu gosto da penumbra. Me favorece... O cara pediu licença e foi ao banheiro. Eu peguei um keep cooler no frigobar. Ele me confessou duas coisa que eu não sabia:

- Preciso cheirar... Tenho namorada...Não poderei dormir aqui com você... Ainda vou buscá-la numa festa de casamento mais tarde... Ela me controla elo celular... Mando mensagens e ela pensa que estou em casa vendo filme.

Pensei em como é fácil fazer as pessoas acreditarem nas suas falsidades. E em como seria tao melhor não precisarmos ocultar essa coisas. Entendi... Era só um sexo rápido. Mas como era madrugada, eu tinha pedido pernoite e dormiria lá. Trocamos uns beijos e tal... Ele não correspondia, sabe? Justificou que a cocaína o deixava aceso, mas interferia na sua ereção... Tudo bem, era só usar os dedos, a língua... a criatividade! Mas não sei porque homem tem paranoia de broxar. Broxa e se sente "impotente". Pô, sexo não se resume a penetração! E eu nem tava afim de muito vuco-vuco. Queria abraços, carinhos e desfrutar de um cara másculo, interessante e bonito. Sim, esqueci de dizer, o cara era do tipo cuidado... Aliás, era bonito mesmo.. Cheiroso, bem vestido, jovem, com cara de menino criado com leite Ninho ferro, sabe? Nunca tive queda por caras grosseiros ou deselegantes. O moço era gentil e educado, e, meio sem graça, pediu mil desculpas. Eu o abracei e disse que não tinha problemas. Deitamos de barriga pra cima, vendo nossas silhuetas no espelho do teto e ficamos conversando. Perguntei sobre quando começou a usar drogas e tal... Ele contou que começou aos doze com álcool, depois maconha e depois cocaína... Contou da namorada... Eu perguntei o por quê, se dizia que gostava tanto dela, por que a traía? Ele deu a explicação que todos dão. Que sente tesão por outras mulheres e que precisa de aventura e fantasia... Perguntou se eu não queria experimentar cocaína... Deus me livre! Se álcool já me fazia fazer um monte de loucuras, imagine! Nem pensar... Ele sorriu, me deu um beijo rápido, foi ao banheiro, cheirou de novo... Consultou o celular, pediu um taxi no interfone e se foi. Deixou tudo pago antes. E eu dormi. Quer dizer, tentei.

Senti uma especie de cobra gigante, parecendo um dragão se enroscando pelo chão. E um casal meio que me observava, meio algemada, sem poder me soltar. Foi um pesadelo horrível! Acordei assustada. Quis sair imediatamente do motel!  Já eram umas cinco e meia e decidi ir a pé, porque não estava com o endereço da casa do amigo que me hospedava, mas sabia chegar lá a pé, já que estava bem  perto... Uns quatro quarteirões. Um jornaleiro passava e pedi para acompanhá-lo. Mais adiante desceu uma moça do ônibus e juntou-se a nós...

Saí e amanhecia. Tive medo e me arrependi de deixar o grupo por causa de um cara qualquer. Sem o efeito da vodca, analisei friamente o perigo que corri. Mas muitas mulheres morrem nas mãos de seus namorados e maridos de muitos anos. Pensam que conhecem aquela pessoa e um belo dia, por ciúme ou qualquer coisa injustificada, eles matam... Se um cara é passional, ciumento ou controlador, é o sinal vermelho pra mim. Não fico! Não quero! Há quem diga que o coração não escolhe, mas o meu escolhe sim, dentro de certos parâmetros! Personalidade violenta, é demonstrada no cotidiano. É a explosão por nada,  a forma pesada de ver os fatos... Enfim, não aceito que encostem um dedo em mim. Nem que me infrinjam violência verbal! Muito menos psicológica! Mas há quem permita... Não porque não sabe conscientemente que isso está errado, que a pessoa não vai mudar, mas por baixa autoestima e outros fatores... Porque é preciso muita autoestima para preferir ficar só a mal acompanhada... Cheguei em casa... Tinha a cópia da chave? Não lembro... Mas eu estava falando de Eros...

Certa vez estava em Belo Horizonte depois de uma jornada esquisita... É, foi esquisito. Fui parar numa dita comunidade espiritual no interior de Minas que na verdade é uma loucura... Mas se tem algo que pode favorecer a loucura, é a religião. O sujeito faz um monte de besteira, rouba, mata, estrupa e depois vira "religioso". Tenta a todo custo comprar sua entrada no céu. Como quem compra um bilhete pro jogo de futebol. Como se fosse possível cambiar, trocar as moedas com Deus!! E tem os que não cometeram crimes, na acepção da palavra, mas que não são definitivamente boas pessoas. São homofóbicos, misógenos e julgadores da moral alheia. Nossa, quanta hipocrisia! Ninguém aqui é  perfeito... Nem temos que ser... cada um com seu tapete... cada um com suas escolhas e vicissitudes... Viver como é importante e justo e não como dizem ser certo... Aliás, o lugar lá, dito de iluminação era terrível porque cheio de gente prepotente a querer ser melhor e controlar os demais. Pra resumir, digo que fiquei três dias e isso porque queria conhecer as coisas de perto... Enfim, saí de lá, fui pra São Tomé das Letras e depois BH.

Em BH fiquei no Ágape, amigão de quem gosto especialmente. Tinha lá uma cachaça artesanal que tomei várias vezes, mas nunca suficiente pra mudar meu olhar ou percepção. Partilhamos várias refeiçoes com gosto. Passeamos muitas vezes até que chegaria o  domingo que ele iria almoçar com seus pais. Me indicou o Inhotim, que eu também indico pra todo mundo. É lindo e surreal... Só digo isso! Fica a uns 60 quilômetros de BH. Foi aí que ele me disse que tinha outra pessoa indo pra lá e de carro. Para minha grata surpresa era Eros, de passagem também pela cidade e que eu nem sabia que estava lá. Combinamos os três, nesta noite anterior a viagem e fomos numa pizzaria. Mais uma vez, afirmo, o amor que nos une aos amigos é dos mas bonitos e sinceros...

Na manhã seguinte Eros veio me buscar. Fomos conversando, que assunto nunca faltou. Essa viagem é anterior aos uísques que contei no início. E o episódio de Vitória é o mais antigo de todos. Então, acho que era a terceira vez que nos encontrávamos viajando. Porque ainda nos encontramos em Goiás, mas interagimos muito pouco lá, pois estávamos em eventos que não coincidiam muito.

No Inhotim optamos pelo carrinho. Ele gosta de caminhar e eu de moleza. E foi bom, pois sem os carrinhos, que pegávamos pra ver as muitas atrações específicas do parque, não daria pra ver tudo, pois é muito grande. Pegamos o roteiro e fomos indo um a um. Algumas vezes foram vários minutos para encontrar um instalação surreal ou um grupo de quadros que achei horríveis, mas arte é isso... Percepções... Sentimentos contraditórios... Alguma coisa a gente tem que sentir... E nem você sente a mesma coisa duas vezes...

Chegamos num dos locais que tinha uma forma de domo... Nossa aprecia que não estávamos ali e sim em algum lugar alienígena... Tenho fotos de tudo... E na memória as coisas vão se apagando com o tempo, mas muita coisa boa permanece.

Entramos num recinto meio escuro, com uma espécie de tango e projeção de um casal dançando. Só nós dois... Dançamos um pouco... Mas eu estava meio desajeitada, não sei porque. Geralmente danço bem... Não posso deixar de confessar que esses lugares onde íamos e quase sempre estávamos sozinhos, geravam uma espécie singular de tesão. E não pelo Eros em si, que nessa época não me despertava nada erótico, mas pelo erotismo do lugar... Poderíamos dançar e sentir aos poucos o cheiro, a pele...  Mas sabe que me afastei e disse que era melhor dançarmos soltos... E assim fizemos... Ficamos lá girando ao som da música... Num movimento solo, quando poderíamos nos sintonizar um pouco mais. Sem pretensão... Enfim, não dá pra voltar atrás em nada na vida... É importante estar completo e inteira em tudo que faço, porque pelo menos posso dizer que vivi o momento... Da melhor maneira que pude... Passamos literalmente o dia todo juntos... E foi uma experiência ímpar, que não poderei nunca ter no mesmo nível e do mesmo jeito com qualquer outra pessoa e nem mesmo com o próprio Eros. Se ele não estivesse lá, eu não teria boas fotos, Primeiro que teria que fazer selfie o tempo todo e segundo que não teria com quem trocar impressões.

Tempos depois Eros veio, que agora não sei precisar se antes ou depois, Eros esteve na cidade. Não me avisou e nem me procurou, visto que não éramos amigos ainda. Ou éramos, mas não sabíamos, visto que a verdadeira amizade não tem tempo... Literalmente. Ele se hospedou com outra pessoa que era de minhas relações de amizade na época e hoje não é mais. Ou seja, não posso chamar de amiga. Amigos são para sempre e fim! Enfim ela me ligou perguntando se poderia hospedá-lo, pois seu vôo sairia de madrugada e ela achava perigoso a saída de seu apartamento, que não tinha porteiro. Eu nem sabia que era Eros, e aceitei ... E que surpresa boa! Mesmo sem ter planejado me ver, ele veio parar aqui. Por algumas horas. Aí conversamos um pouco... Ajeitei o sofá e fim. Não lembro se saímos ainda... Acho que não. Foi só uma noite pra dormir mesmo.

Recentemente, ele veio de férias com a namorada. Marcamos de assistir um show e fomos. Meu celular descarregou e eu prevendo isso já tinha enviado o zap de outra amiga pra ele. Ele ligou, mas não ouvimos. Rodei pelo Largo da Mariquita olhando ao redor e nada. Mandei mensagem no face de minha amiga e fiquei um tanto ansiosa, pois detesto marcar e não conseguir encontrar. Finalmente ele ligou de novo de seu número "confidencial" e em breves minutos estávamos reunidos!

Sua namorada, a quem ele abraçava e cuidava, era bem simpática. Sorri, sapequei dois beijinhos no rosto e fiquei achando que os raios que ainda não tinham caído aquela noite, bem que poderiam fazê-la de pára-raio... Mentira... Não pensei nisso. Mas que seria engraçado, seria. Meu Deus! Não seria não... Mas enfim, pensei em como gostaria de ter um namorado dedicado, sensível , inteligente e amigo como ele. Isso eu pensei e não tenho vergonha de dizer. Não invejei nada. Apenas desejei algo, não ele propriamente. Vimos o show, nos despedimos e ele continuou viagem. Com ela.

Ah, mas teve um dia D. Um dia de prova de fogo que põe em cheque tudo que você acredita. Foi assim: eu fiz um almoço pro meu filho que estaria voltando na Espanha naquele dia. Meu filho estava em Praia do Forte e não veio pro almoço! Pense na decepção! Recebi alguns amigos. Minha mãe ficou até sete da noite. Eu estava bebendo vinho desde cedo. De tarde Eros chegou. Tudo que vou contar, foi na versão de Mamy, pois não lembro de nada disso! Ele veio e eu naturalmente fiquei feliz. Meu filho só veio se despedir de mim na noite, sei lá que horas, mas aí foi tudo bem, pois não adianta remoer as coisas. Era almoço e ele chegou pra ceia. Mas importa que chegou, né? Filho a gente perdoa sempre e é talvez por isso que de vez em quando eles abusem da nossa, digamos, "elasticidade". Aliás, o amor pelos filhos não é incondicional coisa nenhuma. Nós que aprendemos que deve ser... Assim como o amor filial nem sempre existe... Mas isso dá um monólogo doloroso e cheio de flash backs... Fica pra outro dia...

Mamy adorou Eros. Como não gostar de cara de alguém tão bacana? A culpa não é minha se vez por outra acho que os caras que realmente gostam de mim tem que gostar de minha família também. Esses caras que implicam com sua mãe ou com sua irmã, por exemplo, precisam de terapia. A família, por mais louca que seja, tem implicações espirituais... E é preciso respeito a isso... Enfim, todos os meus amigos homens gostam de minha mãe e ela deles. Então, isso é uma vantagem. Não tem coisa mais odiosa que sogra chata e vice versa. Embora na prática eu seja uma sogra apenas razoável. Mas eu nem implico nem atrapalho... Implico???

Pra resumir, Mamy disse que eu estava pra lá de Bagdá e com a fala embolada confessei todos os meus desejos reprimidos por ele. Disse um bocado de abrobrinhas, que certamente não fui eu, mas a "entidade"! Sobre a entidade, também cabe um outro texto, que dar conta de tudo num só é impossível. Mas nós somos assim, cheios de trimiliques... Uma personagem nunca é rasa na cabeça da autora. Embora haja personagens tão inverossímeis, que só podem ser ficcionais. Eu sou real e isso aqui é um confessionário. Vestida de arte eu posso me desnudar de mim mesma e você podem me aceitar ou julgar, porque não tou nem aí. Se estivesse não pintaria com as cores vivas da recordação cada linha dessas...

Falei por palavras que não sei e certamente falei a verdade mais escondida, porque sem os freios do pensamento lúcido, não tem filtro. E sem filtro, sem peneira, sem medo e sem vergonha, disse mesmo a historinha do dia do uísque. E que ele não me quis e tal. E que teve um dia que dei uma massagem nas costas dele, e eu acho que poderia evoluir... Mas na verdade, de fato, mesmo que quisesse, não poderia, pois eu estava bêbada e uma pessoa bêbada, por mais que se insinue ou mesmo que queria transar, não está em sã consciência e deve ser respeitada. E respeito nunca faltou entre Eros e eu. Mamy disse que ele foi paciente. E que respondia às minhas duras e desmedidas palavras com calma e tranquilidade. Ela também me recriminou e criticou pelo comportamento. Disse que não fosse minha cachaça, eu encontraria finalmente um homem legal pra casar. E que pessoas boas, decentes e até mesmo bonitas, estão ao meu redor tempo todo, como amigas. Mas não sai disso.

E aí eu pensei que se alguém quiser me amar, que me ame exatamente como sou. a
Assim, com meus defeitos e total entendimento que não vou mudar pra agradar ninguém. Eu preciso mudar? Por amor a quem? Não sou perfeita, não tenho pretensões de ser e acho impossível qualquer mudança que não surja da necessidade intrínseca do ser...

Quando foi embora, deu carona a Mamy... Sempre cortês...sempre gentil... Mandei mensagem no dia seguinte pedindo desculpas. Ele muito fofo disse que não tinha o que desculpar e que foi tudo lindo.  É confortador ouvirmos o que queremos , mas tem os amigos que falam as verdades nuas e cruas que doem. Que o diga meu amigo de Vitória, o Philos. Me deu uns conselhos, disse que eu deveria "cuidar melhor do meu jardim" e me botou pra chorar... Na hora fiquei a-rre-ta-da!!! Me justifiquei e tal...Tentei persuadir que não era bem isso, mas depois, dei razão a ele... Era preocupação e afeto. E às vezes achamos que ninguém precisa se preocupar com a gente. E não precisa? Precisa? Somos tão fortes, resolvidas e auto-suficientes... E tão bestas por outro lado... Quem não tem seus momentos de vulnerabilidade?

Ao dizer que tava tudo muito bem, Eros não estava sendo complacente. Acho que não o afetou mesmo, só isso. Tem coisas que ganham uma dimensão muito grande para umas pessoas e para outras não. Eu por exemplo, sou muito tolerante com os erros. Os alheios e os meus também. Não fico nessa de curtir ressaca moral e afins. Errei, tá errado!,Que eu reconheça e dê prosseguimento à vida. Que aprenda com a experiência. Não adianta guardar ressentimento, dor... Tudo isso é sofrimento e eu não estou aqui pra sofrer! Mas há quem reclame do sofrimento e sofra porque justamente optou por isso. Como assim, optou? Ora, optando! Se não alimentarmos certas coisas, elas não crescem. A beleza da inteligência consiste em fazer as escolhas certas. Penso sempre que fiz as melhores escolhas para determinado momento.

Eros explica o amor é uma provocação para a minha reflexão sobre os tipos filosóficos de amor. Sem querer explicar e lhe furtar o prazer de maquinar o que foi minha experiência, compartilhada aqui, está óbvio que não existiu erotização entre a gente. Não! Não tem, não parece caber, mas a gente fica pensando que o sexo não precisa ser visto como algo que pode mudar as coisas. Porque na maioria das vezes, o sexo não muda nada. Nem "inflói nem contribói", sabe? Porque podemos beijar no rosto e não podemos dar beijo na boca também. A língua é só um órgão. Porque achamos que o fato de entramos um no corpo do outro podemos mudar a forma como vivemos e devemos ter um tipo de compromisso com o outro por isso. Isso está ultrapassado! Eu não quero um relacionamento em que meu parceiro seja fiel em seu corpo a mim. Não é crucial! Que me importa que ele transe com outras pessoas? Acaso tenho o direito de privá-lo de seu próprio desejo? Quem sou eu para decidir que ele deverá por toda vida comigo desejar apenas a mim e ninguém mais? Isso não faz sentido! Mas faz sentido ter escolha. Escolher partilhar todo seu tempo comigo e ser "meu" e de ninguém mais é incompreensível. Estamos aqui para amar ao próximo e nos reduzimos a um pequeno círculo. Meio que por obrigação, tradição ou educação. Ou tudo isso junto em diferentes graus.

Eu quero amar com intensidade aos que assim desejem também. Aos que desejam o amor sem desejar o corpo. Esse amor fraterno e espiritual... Que nos une e nos conforta. Que nos aconchega e é tão significativo. Dizem que se chama amor Philos.

Eu quero amar de forma sublimada, sempre desejando o bem, o crescimento. Rejeito o sacrifício para Deus. Deus não precisa de sacrifícios. Está muito, mas muito acima disso. Nem nós precisamos nos sacrificar. No amor cabe o bom, o belo, o virtuoso. No amor cabe a felicidade, o êxito a bem aventurança. No amor, e especialmente no amor de Deus, não precisamos sofrer. Se sofremos, é porque projetamos isso. Como arquitetos meticulosos, vamos engendrando coisas que depois ficam enormes e não nos damos conta de fomos nós que construímos. Ao longo de anos, ou segundos... Ah, e as dores, enfermidades, guerras e desigualdades? Quem criou? Quem pode recriar? Quem pode mudar o mundo agora, heim?  Não estamos num jogo, como bonecos manipulados. Temos livre arbítrio!!! Então, existem muitos equívocos nesse amor que o povo acha que é para Deus ou emana de Deus. E a distorção das religiões tem seu preço... Ai de quem ousar pagar achando que está quite com Deus. Deus não negocia e nem precisa de nada. Não há troca de favores humanos nem intercâmbio... Mas há entre nós. Fica aqui tudo que é material...Até o corpo não nos pertence...Mas o amor, esse sim, nos pertence... Sai de nós, entra em nós... Pense,os na gratuidade do amor...

E meu amigo Eros? Não, não é um amor sexual para mim. Talvez seja até um amor romântico. Que deseja se sentir acarinhado e querido, mas que não coloca o prazer físico em primeiro plano...

Eros explica  amor, porque no fundo, no fundo, até mesmo os maníacos, os depravados, o fetichistas, os carentes, os perdulários, os exibicionistas, os solitários e toda uma gama de adjetivos que tentam rotular os comportamentos humanos, cabem dentro de uma profunda vontade de conhecer a plenitude do amor.

Assim me afigura e você não precisa concordar. Mas se um dia amou e foi amado, por pais, parentes, amigos ou amantes, sabe o quanto é bom e o quanto não sabemos ser felizes sozinhos. Embora possamos viver sem o Eros, não podemos viver sem o afeto, a apreciação, a compreensão... Meu amigo Eros, estou tão perto de você... E nosso elo é indissolúvel! Tenhamos novos momentos juntos, pelo mundo! A coisa mais preciosa da gente são as nossas diferenças... Dentro das nossas singularidades...

Guelnete Pinna

Salvador, 12.04.17  05:10







terça-feira, 11 de abril de 2017

Por onde ir?

 Por onde ir

Eu busco a paz
E tanto faz
Se vou saber
Adiantar
Ou parar
Na hora que perceber
Não é assim
Siga seu rumo
É sua escolha
Não perca a classe
Não deixe o mundo
Te engolir
Te envolver
A vida é feita
Pra viver
E tantos sonhos pra plantar
Pra colher o amor
Voce nao pode desistir
Voce precisa decidir

Por onde ir?
Por onde ir?
Por onde ir?
Por onde ir?

Pra buscar e encontrar
As respostas
E as perguntas
Pra se conhecer
Voce precisa
Se conectar
Se permitir

Por onde ir?

Guel Pinna

Salvador, 12.04.17   02:10h

Caminhada

Caminhada

Quando o amor acontece
A gente se esquece
Como pode doer...
Porque não sabemos
Valorizar o que temos
Queremos mudar
Queremos tirar
A própria liberdade
A espontaneidade
Tem que prevalecer
Tem que deixar crescer
E a personalidade
Que na alma cabe
Vai sempre estar lá

Te encantar
Ou te prender
Nas muitas algemas
São os meus dilemas
Ou é o seu prazer?

Vem me aceitar
Como sou
Porque eu me construí assim
E se voce me quiser
Eu te quero tão bem
Eu tenho tantos planos
Pra ontem, pra hoje e pra amanhã
E se você também tiver
Me acompanha na dança
Que a vida orquestrou

Então vem
Eu não me importo também
Se o mundo não é perfeito
Eu também não sou

Então vem
E inteiro me abraça
O tempo lá fora passa
E eu te encontrei

Você já me conhece, talvez
Mas se a gente esquece de vez
O afeto permanece
E eu sei
O quanto o sentimento requer
Cuidado e controle
Requer carinho e respeito
Vem me dar a mão
Enquanto estou tão perto
Enquanto o meu coração
Está aberto...

Então vem
E inteiro me aquece
Meu corpo estremece
Ao toque seu
Você e eu
Não temos mais
Que andar sozinhos
É longa a caminhada
Pra quem vive só
Sem seu par
E sem o verdadeiro amor...

Guel Pinna

Salvador, 12.04.17 01:22h